ESTADÃO DE HOJE - 20/10/2009 Versão Impressa
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A dança das horas, o som das palavras

Em Balés, Bruna Beber mostra os seus afetos, depurados no gosto pela música

Quarta, 20 de Outubro de 2009, 00h00
Francisco Quinteiro Pires

Bruna Beber sofre de um mal, descrito como português e histórico - ela sente saudade até do que não viveu. "Não que eu ache que é melhor o que passou, o que morreu, o que não deu certo", diz. "Valorizo demais o agora." Ela afirma que viver hoje o que ocorreu ontem é ilusão apenas. "No passado não há movimento, só memória, que por mais viva que seja, é só memória", diz. "Então me debruço muito no que acaba para poder compreender todo dia que tudo recomeça." Essa é a essência de Balés (Língua Geral, 56 págs., R$ 26), seu segundo livro de poemas. Trata-se de obra mais madura, influenciada pelo ritmo das músicas que escutou ao longo de sua vida de 25 anos.

Balés foi criado enquanto Bruna entrava na idade adulta. Há quase 3 anos, ela deixou a casa dos pais no Rio para se fixar em São Paulo. "Fiquei morando na sala da casa de uns amigos um tempo, e durante muitos meses só tinha minhas roupas em três malas, dois livros, um pen drive com algumas músicas, textos e 60% do Balés." A solidão, o dinheiro escasso e a falta de controle sobre o amanhã moldaram o olhar da poeta. "Parece que depois de uma grande ruptura você vive um eterno deslocamento, pois não sabe mais se faz algum sentido voltar, o presente é sempre flutuante, e você também não sabe onde vai parar."

Bruna explica a técnica de Balés, dividida em três etapas: "ouvido, reescritura e quebra-cabeça". Terminada a primeira versão da obra, ela gravava cada um dos poemas para ouvi-los. Sentia se estavam agradáveis. E então os refazia. "Reescrevi o livro inteiro algumas vezes, a mão e a máquina, só para experimentar, por curiosidade." Os poemas sobreviventes eram colados na parede para ver se resistiam à releitura cotidiana. Quando percebeu que esse procedimento a estava enlouquecendo, fez a seleção final. "Porque se você começa a pirar demais, não termina um poema nunca, muito menos um livro."

Antes de estrear com A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes (7 Letras), Bruna divulgava seu trabalho na web. "Eu gosto de usar a internet para libertar os poemas porque ela é um meio rápido e você pode jogar no mundo e depois voltar para editar se quiser", diz ela, dona do blog didimocolizemos. "É uma forma de lidar com a poesia sem enclausurá-la nas gavetas, sem aquela imagem do poeta trancado num quarto escuro." A poeta gosta de citar um verso do músico capixaba Sérgio Sampaio: "Lugar de poesia é na calçada."

Sua formação poética vem da família: das músicas ouvidas pela avó e tias. Ela se lembra com carinho da estante preenchida por... vinis. Suas razões e sentimentos nascem do ecletismo: Roberto Carlos, Paralamas do Sucesso, Menudos, Boy George, João Gilberto, Lupicínio Rodrigues e até "a cultura mela-cueca-saborosa da Antena 1 Fm". "E a tudo isso eu somei o funk carioca, que era minha forma de protestar dentro de casa na época." Bruna descreve o diálogo com a música como "respeitoso, porque o admiro, e abusado por sermos muito íntimas." Desse "caos maravilhoso" nasce a dicção sentimental de Balés.



Bruna Beber
CATAVENTO

Do clarinete sopra
o som que leva para longe
os espantos

e grito alto
para punir as cordas
das torrentes

onde se aventura a fonte
dolorosa e frágil
do silêncio.