Bruna Beber sofre de um mal, descrito como português e histórico - ela sente saudade até do que não viveu. "Não que eu ache que é melhor o que passou, o que morreu, o que não deu certo", diz. "Valorizo demais o agora." Ela afirma que viver hoje o que ocorreu ontem é ilusão apenas. "No passado não há movimento, só memória, que por mais viva que seja, é só memória", diz. "Então me debruço muito no que acaba para poder compreender todo dia que tudo recomeça." Essa é a essência de Balés (Língua Geral, 56 págs., R$ 26), seu segundo livro de poemas. Trata-se de obra mais madura, influenciada pelo ritmo das músicas que escutou ao longo de sua vida de 25 anos.
Balés foi criado enquanto Bruna entrava na idade adulta. Há quase 3 anos, ela deixou a casa dos pais no Rio para se fixar em São Paulo. "Fiquei morando na sala da casa de uns amigos um tempo, e durante muitos meses só tinha minhas roupas em três malas, dois livros, um pen drive com algumas músicas, textos e 60% do Balés." A solidão, o dinheiro escasso e a falta de controle sobre o amanhã moldaram o olhar da poeta. "Parece que depois de uma grande ruptura você vive um eterno deslocamento, pois não sabe mais se faz algum sentido voltar, o presente é sempre flutuante, e você também não sabe onde vai parar."
Bruna explica a técnica de Balés, dividida em três etapas: "ouvido, reescritura e quebra-cabeça". Terminada a primeira versão da obra, ela gravava cada um dos poemas para ouvi-los. Sentia se estavam agradáveis. E então os refazia. "Reescrevi o livro inteiro algumas vezes, a mão e a máquina, só para experimentar, por curiosidade." Os poemas sobreviventes eram colados na parede para ver se resistiam à releitura cotidiana. Quando percebeu que esse procedimento a estava enlouquecendo, fez a seleção final. "Porque se você começa a pirar demais, não termina um poema nunca, muito menos um livro."
Antes de estrear com A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes (7 Letras), Bruna divulgava seu trabalho na web. "Eu gosto de usar a internet para libertar os poemas porque ela é um meio rápido e você pode jogar no mundo e depois voltar para editar se quiser", diz ela, dona do blog didimocolizemos. "É uma forma de lidar com a poesia sem enclausurá-la nas gavetas, sem aquela imagem do poeta trancado num quarto escuro." A poeta gosta de citar um verso do músico capixaba Sérgio Sampaio: "Lugar de poesia é na calçada."
Sua formação poética vem da família: das músicas ouvidas pela avó e tias. Ela se lembra com carinho da estante preenchida por... vinis. Suas razões e sentimentos nascem do ecletismo: Roberto Carlos, Paralamas do Sucesso, Menudos, Boy George, João Gilberto, Lupicínio Rodrigues e até "a cultura mela-cueca-saborosa da Antena 1 Fm". "E a tudo isso eu somei o funk carioca, que era minha forma de protestar dentro de casa na época." Bruna descreve o diálogo com a música como "respeitoso, porque o admiro, e abusado por sermos muito íntimas." Desse "caos maravilhoso" nasce a dicção sentimental de Balés.
Bruna Beber
CATAVENTO
Do clarinete sopra
o som que leva para longe
os espantos
e grito alto
para punir as cordas
das torrentes
onde se aventura a fonte
dolorosa e frágil
do silêncio.