Enquanto muitos preferem restringir as origens do fado ao bairro da Mouraria, Carlos Saura traça outro caminho: apresenta um conjunto de números musicais para resgatar as raízes afro-brasileiras de "relação indireta"com a cultura portuguesa, como ele mesmo diz. Muita polêmica surge daí, mas não é o que mais importa nesta análise. Afinal, o diretor abertamente declara que a seleção não foi fácil, apesar de baseada em seu gosto pessoal. Fados (2007), que estreia neste fim de semana em São Paulo, completa a trilogia da música em Saura, que começou com Flamenco (1995) e continuou com Tango (1998). Mas, segundo o produtor português Ivan Dias, "este filme pretende ser mais arrojado do ponto de vista cênico e estético".
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O percurso do diretor até chegar aos fados de Severa (com direito à projeção de trecho do filme A Severa, de Leão de Barros, em 1931), em Lisboa, é tecido com delicadeza exemplar, justamente pelo figurino. O observador atento poderá investigar passo a passo, em pequenos detalhes, a cada cena deste filme musical ou documentário - como queiram chamar -, uma pista diferente sobre a origem dos costumes. Saura é bastante conhecido pela opção de trajes disfarçados, que dão ao espectador a impressão de que não são figurinos. Mas são. Esteticamente calculados para tocar o espectador e provocar uma identificação real com a roupa ou o que se espera dela.
A proposta em Saura não é nova: em Bodas de Sangue (1981), o figurino das espanholas buscava uma linguagem que era ao mesmo tempo um traje popular universal qualquer, mas correspondente ao que o imaginário popular traz de um traje espanhol. A crítica às instituições e à família espanhola, exaltando suas riquezas culturais, permeia os filmes anteriores e aparece no olhar do diretor, que, vale lembrar, iniciou sua carreira como fotógrafo, em 1932. A imagem, em seus filmes, basta para construir a expressão. Por meio da música-dança e do gesto-imagem, ele dialoga com o som. Outra característica evidente é a roupa que revela toda a possibilidade expressiva do corpo do ator-bailarino-performer. Em Bodas de Sangue, essa experiência toma vida por intermédio de duas grandes figuras da dança espanhola, Cristina Hoyos e Antonio Gades. Neste Fados, por um corpo de bailarinos que se revezam nas encenações.
O filme traça um percurso histórico que os trajes acompanham perfeitamente, assinados pela figurinista Isabel Branco e com a colaboração de Eva Arretxe (na Espanha). A primeira cena tem caráter etnológico, resgatando tradições populares que soam contemporâneas, mas vêm do século 18. O fado surge dessa raiz, de todas essas influências e não de uma só. Descrever cada cena tiraria do leitor o prazer de identificar por si só as fontes de Saura para a criação, mas valem algumas pistas. Há um lundu "mineiro", que é mais antigo que o fado, cantado por Toni Garrido, acompanhado por um coro de escravas negras vestidas como brancas, o que indica uma pesquisa verossímil: escravas copiavam os trajes das brancas de origem portuguesa, no que interessava, claro, já que as negras escolhiam do guarda-roupa das brancas as peças que melhor se encaixavam com seu poder de sedução. E o alvo principal eram os homens portugueses que habitavam o Brasil de então.
Há uma bela sequência de trajes gregos em Fado Menor do Porto. A mexicana Lila Downs aparece na homenagem à Lucília do Carmo, único trecho do filme que conta uma história, usando o teatro-dança, em Foi na Travessa da Palha. "A mulher que traía não valia nem a sombra do meu amor" e, por esse motivo, provavelmente ela não veste o vermelho passional - cor representada na força da "primeira amante" - mas sim, interpretando poeticamente um verde sedutor, envolvente, que aparenta submissão. Mas está longe de ser.
Ricas são as variedades e tonalidades deste Fados, que traz na sua síntese o fatum, o destino, que nem sempre há de ser maligno ou trágico. Acima de tudo, há a ala nova do fado português, que inova tanto, que resgata a cor negra dos trajes, severamente pesada, da tradição. É o que veste o fadista Pedro Moutinho, que se destaca no duelo com Ricardo Monteiro - ambos, entre tantos outros que se apresentam na Casa de Fados, cantam de olhos fechados. Afinal, quem canta é a alma. Na cena Lisboa, o grande inspirador de Saura, Carlos do Carmo, adentra a cidade com o amor pela liberdade, paletó desabotoado e gravata frouxa. Saura declarou para a TV portuguesa que "a cenografia é sempre muito simples e básica, sem elementos realistas. Tudo muito limpo. Adaptado a dar maior importância à presença do artista que, sobretudo, é o que interessa". Mas o trabalho em estúdio nesta cena, com projeções de Eduardo Serra e fotografias da cidade em grandes painéis, criam um jogo audiovisual em uma das cenas mais singelas e tocantes do filme.
Para sua consagração definitiva, vem a cantora moçambicana Mariza. Ela traja em Meu Fado Meu um vestido negro: corte e formato tradicionais. Conservador para quem vê, mas inovador para quem observa - é transparente, feito de materiais leves e arrematado por belos colares negros de pedras. Tanto Mariza quanto Moutinho exprimem as cores nas belas tessituras de suas vozes e na delicadeza que delas emerge. O que, em síntese, é o que busca Saura com sua película.