ESTADÃO DE HOJE - 08/10/2009 Versão Impressa
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Acusado agiu ''como paparazzo'', afirma defesa

Apontado como mentor do vazamento de prova achou que podia cobrar por 'furo jornalístico', diz advogada

Quarta, 08 de Outubro de 2009, 00h00
Leandro Calixto e Sergio Pompeu

Apontado pela Polícia Federal como o "mentor" do vazamento do Enem, Felipe Pradella negou em depoimento ter tirado provas da Gráfica Plural. Disse que as recebeu de Filipe Ribeiro, seu colega na equipe contratada pelo consórcio Connasel para conferir e embalar provas e quis divulgar o caso pelo seu apelo jornalístico. "Ele achava que estava dando um furo de reportagem para a empresa jornalística que fosse comprar. Por isso, resolveu cobrar pelo serviço", disse a advogada de Pradella, Claudete Pinheiro. "Imaginou: "Se paparazzos (sic) cobram por uma grande foto, por que não cobrar por isso?""

Claudete afirmou que Pradella, de 32 anos, é corretor de imóveis e pai de uma criança de 4. Segundo ela, o cliente está na casa de um parente em Osasco, Grande São Paulo. "Ele só sabe chorar. Está com vergonha." A advogada negou que Pradella tenha ameaçado a repórter do Estado Renata Cafardo, como consta do inquérito da PF.

No depoimento à polícia, Pradella afirmou que começou a trabalhar na Plural em 18 de setembro e só soube no dia 24 do desvio do caderno de prova. Disse que Ribeiro furtou o exame e mostrou-lhe o caderno quando os dois estavam num veículo usado pelo Connasel para transportar sua equipe. Pradella afirmou que o colega deixou o material com ele, mas não esclareceu por que Ribeiro fez isso.

A polícia acha que Pradella mentiu por causa dos depoimentos de Ribeiro, de 21, e de Marcelo Sena, de 20, contratados pelo consórcio e também indiciados pelo vazamento. Ribeiro disse ter saído da Plural com o caderno 1 do Enem (prova que seria aplicada no sábado) escondido na cueca no dia 21, por orientação de Pradella. Registros do circuito interno de TV da gráfica do dia 22 mostram o corretor pegando o caderno 2 do Enem (prova de domingo) e entregando-o para Sena, que enrola o exame numa blusa.

Pradella afirmou ter falado do desvio da prova a um amigo, o DJ Gregory Camillo Craid. Segundo ele, o DJ, que conhecia jornalistas, garantiu que a imprensa teria grande interesse no material. Pradella afirmou que, na noite de 29 de setembro, Gregory levou-o num Celta vinho à pizzaria de Luciano Rodrigues, conhecido do DJ que tinha contatos em redações - trabalhou por 15 anos na área comercial da Agência Estado. Rodrigues já admitiu ter colocado a dupla em contato com dois jornais, um deles o Estado.

No dia 30, Pradella afirmou ter feito uma romaria com Gregory para tentar vender a prova a jornalistas de vários órgãos de comunicação, em encontros marcados pelo DJ. Segundo ele, o primeiro ocorreu no Parque Villa-Lobos e o segundo, numa lanchonete do Jaguaré. Por fim, à noite, a dupla reuniu-se com a equipe do Estado. Pediu R$ 500 mil pela cessão do material, mas Pradella deu a entender que não participou da definição do valor. O Estado recusou-se a pagar e alertou o Ministério da Educação, que cancelou o Enem.