É um sonho de cinéfilo. O festival do Rio 2009 termina hoje à noite com o anúncio dos vencedores do Troféu Redentor, na mostra competitiva Première Brasil, e amanhã, pela manhã, Leon Cakoff realiza em São Paulo a coletiva de lançamento da 33ª Mostra Internacional de Cinema, que este ano começa no dia 22 e vai até 5 de novembro. Entre os dois eventos, rapidamente, durante cinco dias, Belo Horizonte estará sediando sua mostra internacional, que traz ao Brasil, antes de São Paulo, o maior filme exibido este ano em Cannes. Não - não é The White Ribbon, de Michael Haneke, a quem o júri presidido pela atriz Isabelle Huppert outorgou a Palma de Ouro em Cannes. O maior filme de Cannes 2009 nem integrou a competição. Independência, do filipino Raya Martin, passou na mostra Un Certain Regard.
Em São Paulo, a Mostra deste ano abre-se com À Procura de Eric (Looking for Eric), de Ken Loach, com Eric Cantona. Depois de anos prometendo vir ao Brasil, o mestre do cinema político, autor de obras como Kes - que acaba de ser lançado em DVD -, Riff-Raff, Agenda Secreta, Terra e Liberdade, Meu Nome É Joe e Ventos de Liberdade, deve fazer, ao vivo, a abertura do evento paulista. Com ele virá Eric Cantona - leia Cantoná - , o astro francês do futebol que virou ídolo do Manchester, na Inglaterra. Cantona é o ídolo de outro Eric, um carteiro que está à deriva na vida. Perdeu a mulher, o filho está ingressando na criminalidade. A vida toda é uma m... Eric chega ao fundo do poço. Pensa até em se matar. É quando surge em sua vida o próprio Cantona, que, como anjo da guarda, vem lhe apontar uma saída para a crise. Em Cannes, o repórter do Estado encontrou-se com ambos, o astro esportivo, agora também do cinema, e o diretor. Será uma bela abertura para a Mostra de 2009. Com a palavra, Ken Loach.
Você já havia manifestado seu amor pelo futebol no episódio de A Cada Um Seu Cinema, mas um filme sobre futebol, com Eric Cantona, é uma surpresa. Como aconteceu?
Tudo se passou muito rapidamente, com a urgência com que gosto de trabalhar, mas antes preciso fazer uma correção - não é um filme "sobre" futebol, é sobre pessoas. Temos o nosso pequeno Eric, carteiro, e o grande Eric, o astro futebolístico. Little Eric é bem a representação da crise em que esse mundo moderno, da economia de mercado, lançou as pessoas. Na economia de mercado, tudo vale segundo a teoria da oferta e da procura. O pequeno Eric não conta nesse universo. É zero. Big Eric vem lhe mostrar que não é bem assim.
Como surgiu a parceria com Big Eric?
Não vou desdenhar dos outros astros de futebol, pois sei que existem muitos articulados e inteligentes, mas Cantona foi uma surpresa para mim. A ideia de uma parceria partiu dele e seria muito fácil, para mim, dizer não de cara. Mas grande Eric é um ídolo justamente de um público que me interessa, não como mercado potencial, mas como humanidade. Em nosso primeiro contato, ele sugeriu uma história que não me interessou, mas ofereci a contrapartida. Disse que ia falar com Paul (o roteirista Paul Laverty, parceiro habitual do grande diretor) e, se tivéssemos alguma proposta interessante, voltaríamos a conversar. Paul (Laverty) tirou da cartola essa história muito rica que encantou o próprio Cantona. A partir daí, tudo caminhou rapidamente.
Vocês se basearam em Woody Allen? Em Sonhos de Um Sedutor (Play It again, Sam), Woody Allen também está na pior, mas o espírito do Bogart de Casablanca lhe aparece para impulsioná-lo a mudar de vida.
Não conheço o filme de Woody Allen e creio que nem Paul (Laverty). Nunca falamos sobre isso e muito menos usamos, como é que você diz, Play It Again, Sam?, como referência. Mas foi interessante trabalhar com as camadas que a persona de Cantona oferece. Existe ele, como homem, mas existe também o mito. Big Eric adora os aforismos. São uma característica de sua personalidade. Ele vive construindo essas frases que tivemos, Paul e eu, prazer em recuperar. Quando chegamos à ação terrorista, com as máscaras, nossa intenção era justamente universalizar o mito de Cantona como resistência.
Ou seja - o fato de você estar fazendo essa fantasia não significa que abriu mão de seu cinema socialista.
Nunca. O mundo atual está formatado de um jeito para fazer com que as pessoas tenham vergonha de se declarar de esquerda. É como se fosse um anacronismo, o que não é verdade. Vocês, no Brasil, vivem um momento muito interessante. A América do Sul está mostrando que um outro mundo é possível e isso, naturalmente, provoca reações.
Você sempre se revelou interessado pelo que ocorria no Brasil de Luiz Inácio Lula da Silva...
E continuo muito interessado. Lula tem tido posições (NR - a entrevista foi feita há quatro meses) corajosas. Entendo perfeitamente a pressão de certos setores contra ele.
Você vive prometendo ir ao Brasil, para lançar seus filmes, mas isso nunca ocorre. Teremos chance desta vez?
Você talvez se surpreenda, mas digamos que sim. Estamos fechando certos detalhes de agenda, mas as coisas se encaminham bem.
Nos seus dias de glória no Manchester United, Cantona era chamado de "Deus" pela torcida. Não foi intimidante para você dirigir uma figura tão carismática?
No começo, não era só eu que estava intimidado. Ele, também. Nosso primeiro encontro poderia ter sido um desastre. Ficamos meio embaraçados, em silêncio. Se o produtor (Vincent Maraval) não tivesse quebrado o gelo, acho que estaríamos lá até agora.
Seu método mudou alguma coisa por causa de Cantona? Você sempre gostou de improvisar com os atores.
E continuamos improvisando. Por suas aparições públicas, por seus aforismos, Big Eric tem o sentido da representação (e da câmera). Mas é claro que eu usei meus pequenos truques. Filmamos a primeira cena com o carteiro, em ordem cronológica. Não deixei que ambos conversassem. Queria justamente que Little Eric manifestasse o estranhamento de contracenar com Big Eric pela primeira vez.
Nunca é tarde para quebrar as próprias. Você nunca gostou de trabalhar com astros. Seu cinema é feito de (e com) pessoas comuns. O que o levou a mudar?
O fato de ele ser Cantona, o que mais você quer?
Em Kes, já existe uma cena de futebol, na escola...
O assunto me persegue, mas em nossos países, a Inglaterra e o Brasil, o futebol está na alma do povo. Seria muito preconceito ignorar isso.