Essencialmente econômica, a Feira do Livro de Frankfurt utiliza garotos-propaganda de renome para atrair a atenção mundial. É o que justifica o desfile de ganhadores do Prêmio Nobel, que se apresentaram ontem no evento. O mais disputado foi o da mais recente vencedora, a romena naturalizada alemã Herta Müller, que atraiu uma pequena multidão para uma entrevista pública. No mesmo horário, o vencedor de 1999, o também alemão Günther Grass, participou da homenagem aos 50 anos de sua obra maior, O Tambor. E, pouco mais tarde, foi a vez do ganhador de 2000, o chinês Gao Xingjian.
Herta, no entanto, atraiu mais atenção - para onde mirassem seus grandes e tristes olhos azuis, havia uma câmera, uma filmadora, ao menos um olhar de curiosidade. Ela falou durante meia hora sobre sua mais recente obra, Atemschaukel, que, como as demais, trata essencialmente da luta do homem contra a opressão.
"Aqui está um bom exemplo sobre o que se trata a minha literatura", disse ela ao Estado, quando apresentada ao único livro publicado no Brasil, O Compromisso (Globo). Aqui, como em Atemschaukel, os personagens principais vivem no fio da navalha, oprimidos por regimes opressores - experiência, aliás, semelhante à da própria Herta, obrigada a deixar a Romênia nos anos 1980, oprimida pela censura do governo comunista de Ceausescu.
Leopold, protagonista de Atemschaukel, é um homossexual enviado para um campo de trabalho forçado antes do início da 2ª Guerra Mundial. Lá, obrigado a esconder sua preferência sexual, passa por provações e uma necessidade extremada. "Entrevistei homens e mulheres que sofreram horror semelhante", contou Herta a um público atento, o que explica o detalhismo e a emoção que caracterizam sua descrição do campo de trabalho. "As vivências individuais me permitiram criar diferentes perspectivas."
Talvez o mais atraente por ser justamente o mais aterrador é a forma como os personagens encaram a fome, uma necessidade que, de tão atávica, acaba personificada. "Para enfrentar o sofrimento, um dos caminhos encontrados é transformar a fome em um companheiro, porque está sempre presente."
Quando fala, Herta mantém seus grandes olhos erguidos, revelando uma tristeza infinita, como se estivesse vivenciando o que narra. Sua pequena estatura é mantida imóvel, o que acentua as feições, aparentemente moldadas em função exclusiva do olhar azulado.
Leopold, como a narradora de O Compromisso, carrega os traumas e as ambições de sua autora. "Ele sobrevive especialmente porque é um homem que pensa", avalia. "As palavras lhe soam como um alimento, que o mantêm vivo nos momentos mais desesperadores."
Embora more na Alemanha desde 1987, Herta mantém o reflexo de quem viveu sob o terror: ontem, durante a sessão de autógrafos, ela discretamente acenou para um segurança quando um homem lhe falou em romeno. Sua tranquilidade só voltou depois do afastamento do sujeito, aparentemente satisfeito com o autógrafo.
A garantia da segurança é sempre um dos tópicos de sua conversa. Ontem, Herta Müller aproveitou para novamente defender os escritores chineses que sofrem com a repressão em seu país - na quinta-feira, ela tinha visitado o estande de autores dissidentes. "É importante que todos tenham sua proteção garantida, o que pode acontecer especialmente com aqueles cujos nomes foram mencionados durante a feira, ganhando notoriedade."
Gao Xingjian concorda - diante de uma plateia também grande, ele falou sobre a experiência de viver em uma cultura diferente da sua. Afinal, ele mora em Paris há 21 anos, fugindo da censura do governo chinês. Para Xingjian, não existe liberdade plena em nenhum ponto do mundo. "Mas é evidente que há lugares melhores que outros", disse. "E, como o escritor é um ser privilegiado, pois pode criar a sua liberdade, é preciso apenas que ele saiba enfrentar os obstáculos."
Xingjian promove também um encontro de formas de expressão, ao também pintar. "O que não consigo expressar em palavras, transformo em imagens", revela ele, reafirmando a necessidade da liberdade de pensamento. "Sem isso, ou a arte não existe ou é completamente falsa."
Germânicas
Como a sexta-feira amanheceu cinzenta, com chuvas esporádicas em Frankfurt, o roqueiro australiano Nick Cave decidiu não vir à feira, como prometido - preferiu guardar forças para uma reservadíssima festa à noite, comemorando o sucesso do livro The Death of Bunny Munro (A Morte do Coelho Munro), ainda sem edição no Brasil. A programação previa uma breve leitura do texto pelo autor.
Foi lançado, durante a Feira de Frankfurt, o primeiro ensaio em língua estrangeira sobre a obra do escritor Milton Hatoum: Zwischen Orient und Amazonas (Entre o Oriente e o Amazonas) foi escrito por Albert von Brunn e editado pela TFM, editora mantida pelo português Teo Ferrer Mesquita, em Frankfurt.
O livro eletrônico continua na pauta. Ontem, foi anunciada a criação da biblioteca digital EU Bookshop que, com 12 milhões de páginas digitalizadas, vai permitir disponibilizar gratuitamente mais de 110 mil publicações da União Europeia, desde 1952.
Durante a feira, Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, conseguiu fechar a publicação de Leite Derramado, de Chico Buarque, em mais três países: Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, que se unem a França, Portugal, Espanha e Itália, totalizando 11 nações que editam a obra.
Na luta por direitos autorais de obras que podem se transformar em sensação, aliás, editoras brasileiras disputaram pelo livro considerado a sensação da feira: os diários pessoais de Nelson Mandela. Já comercializado para Portugal, França e Dinamarca, o livro - segundo testemunhas insuspeitas - chegou a atingir o valor de US$ 50 mil no leilão brasileiro.
E o livro de ficção mais disputado foi The Discovery of Witches, de Deborah Harkness, romance paranormal com os tradicionais vampiros, arrematado por oito países, inclusive o Brasil. U.B.