Em Berlim, em fevereiro, Theo Angelopoulos já estava de malas prontas para ser homenageado no Festival de Guadalajara, no México. Mas ele admitiu que teria grande prazer de vir ao Brasil, se sua agenda permitisse. Deu tudo certo e Theo - Deus, em grego - será o homenageado especial da Mostra. Tirando Cahiers du Cinéma, que não tem muito apreço por ele e define seu cinema como "pompier", Angelopoulos é cultuado por cinéfilos de todo o mundo. Estilista radical, ele constrói o tempo por meio de elaborados (e lentos) planos sequências, mas seria só um formalista se esse rigor não estivesse a serviço de uma visão humanista.
O Apicultor, O Passo Suspenso da Cegonha, A Eternidade e Um Dia - são muitos os grandes filmes de Angelopoulos que um espectador pode carregar pela vida, mas, se fosse para escolher apenas um, seria com certeza a sua Orestíade, Paisagem na Neblina, sobre aquele motociclista que conduz um casal de irmãos na busca mítica do pai. O grande artista mostrou no Festival de Berlim deste ano The Dust of Time (A Poeira do Tempo), segunda parte de uma trilogia que começou há quatro anos com The Weeping Meadow (A Terra Que Chora), que também concorreu em Berlim (e nada recebeu). Ambos os filmes integram a trilogia que Angelopoulos dedica a Eleni (Helena), personagem mítica e visceral da cultura grega.
Por que dedicar uma trilogia a Helena?
Devolvo-lhe a pergunta - por que não Eleni? Ainda nos anos 50, antes de estrear na direção de longa, (Jean-Luc) Godard fez um curta chamado Tous les Garçons s"Appellent Patrick. Se todos os homens podem se chamar Patrick para Godard, por que todas as mulheres não podem ser Helenas para mim? Helena encarna o eterno feminino, o mito da mulher, na cultura grega. Na Ilíada, Homero conta como ela foi o estopim para a Guerra de Troia. Na Odisseia, o mesmo Homero narra a errância de Ulisses, após essa guerra, seu difícil retorno para casa. Na trilogia, eu realizo os dois movimentos. São filmes em que a mulher atua como elemento agregador e desagregador, ao mesmo tempo. O terceiro vai se chamar Tomorrow e será algo futurista. No primeiro, filmei o passado da Grécia. No segundo, o passado tem desdobramentos no presente de um cineasta que realiza um filme sobre sua mãe. É um filme sobre o fim do exílio, quer dizer, o fim da Odisseia e o retorno para casa.
O tempo é sempre importante em seu cinema. Por quê?
Vivemos no tempo e no espaço, mas ao contrário do espaço, que é delimitado em fronteiras, o que tem sido uma tragédia para a humanidade, o tempo não tem limites e pode ser deslocado do real para entrar no mundo da imaginação. Especificamente, A Poeira do Tempo mostra esse cineasta, Willem Dafoe, que não sou eu, enfrentando os problemas de uma filmagem sobre seus pais. Eles tiveram que fugir para a União Soviética, foram parar no Gulag e, com a queda do Muro de Berlim, há mais do que um reencontro familiar. O pai e a mãe, Michel Piccoli e Irène Jacob, se encontram com um antigo amigo do casal e grande amor de Helena, Bruno Ganz. Gosto de misturar tudo, a política e os sentimentos e o tempo, claro.
Seus planos sequências revelam sempre grande elaboração. Você tem aqui duas cenas notáveis - o anúncio da morte de Stalin reúne a população de uma cidadezinha e, depois, em choque, as pessoas vão se dispersando, até que ficam apenas duas ou três perdidas no meio da imensidão da neve. Igualmente impressionante é a cena de uma multidão que sobe, como se fosse em câmera lenta, uma imensa escadaria formada por múltiplos planos. Parece câmera lenta!
Mas é tempo real! Gosto desse tipo de cena, e gosto duplamente. Pelo que ela me permite dizer e também pelo desafio de realizar esses planos. Stalin tem sido um fantasma em minha obra. Havia aquela estátua de Stalin na água em A Eternidade e Um Dia, assim como aqui existem várias estátuas dele abandonadas num depósito. Pode-se falar sobre as mudanças ideológicas no mundo somente pelo comportamento individual e coletivo diante do mito de Stalin. O monumento caído possui um significado visceral. A cena do anúncio de sua morte fecha um ciclo em A Poeira do Tempo, mesmo que as pessoas, naquele momento, ainda não saibam das mudanças que o fato vai acarretar. Desde o roteiro, essa cena já era prevista como um só plano. Foi tudo muito ensaiado. Começamos de madrugada a preparar o plano e ele só foi filmado horas mais tarde. O próprio tempo transcorrido durante a preparação foi importante. As pessoas terminaram por se cansar. Isso acrescentou algo imponderável ao que havia planejado. O balé da massa humana ficou muito mais impressionante.
Os mitos gregos estão na base da cultura ocidental. Você tem Helena, mas também tem a figura de Ícaro, estampada no chão, em outra cena importante. Ícaro tentou voar, mas o calor do sol derreteu a cera que amalgamava suas asas e ele caiu. Bruno Ganz faz uma referência a Ícaro grego numa queda similar.
Mais que realidade, o que me interessava era lidar com o passado que se torna presente e o presente que de novo se transforma em passado. Os personagens têm de dar a impressão de estar se movendo numa espécie de sonho. Para quebrar isso, o fecho da trilogia vai investir no futuro, mas pode crer que o passado se fará presente.
Já que você admite visitar o Brasil, que imagem faz do meu país?
Aquela que o cinema me forneceu. Conheci Glauber Rocha e o barroquismo de seus filmes sempre me pareceu muito rico. Glauber era explosivo, apaixonado. Não sou um especialista em sua obra, mas ele criou imagens inesquecíveis.
Seus filmes também possuem imagens inesquecíveis. Citei algumas, mas poderia ficar falando durante horas de cenas que me marcaram em seu cinema.
Todo artista filma para expressar seu mundo interior. Filmo porque preciso me libertar dessas imagens. É um rito de transferência. Você as assimila e, a partir daí, o filme é seu.