ESTADÃO DE HOJE - 08/10/2009 Versão Impressa
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''Importante foi não ser cabotino''

É o que diz Eric Cantona, ídolo do futebol francês, que fez sucesso no Manchester

Segunda, 08 de Outubro de 2009, 00h00
Luiz Carlos Merten

É um dos prazeres que À Procura de Eric, o novo Ken Loach, proporciona - ver o grande e o pequeno Eric, Cantona e Steve Evets, sentados, bebendo uma cerveja ou fumando e filosofando sobre a vida. Cantona, casado com uma ex-Spice Girl, é autor de frases obscuras como aquela que diz que as gaivotas seguem a treineira, na expectativa de que lhes sejam atiradas sardinhas, no mar. Sua grande lição para o pequeno Eric vem resumida numa frase - "Quando o adversário espera que você ataque pela direita, você vai pela esquerda. A melhor maneira de surpreender os outros é surpreendendo a si próprio."

Ken Loach diz que nunca trabalhou tanto no fio da navalha. Uma nota em falso e ele poderia destruir o filme. Afinal, você é o tempo todo alguma coisa entre a miragem e uma figura real. Como você se sentiu fazendo o filme?

Em meu primeiro contato com Ken (Loach), falei desse projeto em que eu ficava amigo de um fã. Achei que iria interessá-lo. Afinal, é o diretor da solidariedade da classe operária, mas Ken não ligou a mínima. O que ele me propôs foi algo mais complexo do que isso. Represento meu papel e algo mais, o que não seria fácil nem para o mais profissional dos atores shakespearianos.

Há uma cena exemplar. Steve Evets, o pequeno Eric, diz que, às vezes, a gente se esquece de que você é um homem. Você responde que não é um homem - é Cantona.

E acredite, foi uma de minhas cenas mais difíceis. Ken não gosta de repetir muito, para não tirar o frescor da representação. Eu bem sabia que tinha de acertar de cara. O importante, então, era não ser cabotino e acreditar em mim mesmo como uma entidade.

Deus?

Vivemos numa sociedade da imagem e, para muitos fãs, jogadores, astros de cinema ou corredores de Fórmula Um podem ser, sim, os deuses modernos. Mas o importante não é ser uma celebridade e sim o uso que você faz disso. Quando você deixa de ser simplesmente uma pessoa para virar a encarnação de um desejo coletivo, as coisas podem se tornar complicadas. Você não pode perder o foco. Você tem de ser você, e não o que os outros esperam.

Na França e na Inglaterra, você é um mito, mas na América Latina os nossos mitos são outros. Por exemplo - Pelé ou Maradona?

Maradona, sempre.

Por quê?

Pelé é um atleta extraordinário, mas Maradona... Além de ser jogador de gênio, ele é um apaixonante e complexo personagem de si mesmo. O homem Maradona volta e meia desestabiliza nossos parâmetros. Na vida, na política, ele joga com a mesma paixão. Não tem medo do risco nem de se expor. Você conhece o texto de Eduardo Galeano sobre ele? É a coisa mais bela que já se escreveu sobre o futebol, e sobre um jogador. Maradona foi o escolhido.

Por que você parou com o futebol?

Por um motivo muito simples. Tinha de ser honesto com os fãs e comigo mesmo. Havia perdido a paixão pelo jogo, não fazia sentido continuar. O difícil foi o dia seguinte. Não existe nada mais intenso do que o futebol. Experimentei um vazio muito grande - jogadores deveriam ser preparados para a vida após a disputa nos estádios. O futebol é tão forte que, quando termina, parece que nada mais faz sentido. Felizmente, descobri o cinema, ou o cinema me descobriu.

E a música? Você toca trompete numa cena.

Oh, aquilo.... Meu olhar ficou interessante, mas tenho de admitir que hoje toco ainda pior do que quando filmamos.

As cenas dos gols, o passe foi você que escolheu?

Foi tudo ideia de Ken e Paul (o roteirista Laverty). O passe me pareceu justo. Em vez da jogada individual, a celebração do esforço coletivo. Nada mais Ken Loach, não?