Não foi dessa vez que o sul-africano J.M. Coetzee conseguiu a proeza de se tornar o primeiro escritor a conquistar pela terceira vez o Man Booker Prize, o mais prestigioso prêmio literário da comunidade britânica - ele concorria com Summertime, memórias ficcionais nas quais um jovem biógrafo inglês trabalha em um livro sobre um autor morto chamado John Coetzee, mas o júri preferiu Wolf Hall, romance ambientado na corte de Henrique VIII. Com isso, a inglesa Hilary Mantel, de 57 anos, ganhou o prêmio de 54 mil.
O livro relata a turbulência provocada na Inglaterra do século 16 quando o rei anuncia seu desejo de se casar com Ana Bolena. A história é narrada sob a perspectiva do conselheiro real, Thomas Cromwell. Os direitos da obra, que tem 650 páginas, já foram adquiridos pela Record, que deverá publicar sua tradução no próximo ano - recentemente, a editora brasileira lançou uma obra anterior, A Sombra da Guilhotina (veja ao lado), sobre a Revolução Francesa.
Durante a premiação, que ocorreu na noite de terça-feira em Londres, Hilary confirmou que já escreve a continuação de seu romance vitorioso, cujo título deverá ser The Mirror and the Light (O Espelho e a Luz). "A história vai acompanhar a ascensão de Cromwell até sua súbita desgraça", contou a autora em uma entrevista à rádio BBC. "Ele vai acabar enforcado, como a maioria dos seguidores de Henrique."
Ela observa um claro paralelismo entre o tribunal de Henrique VIII e os políticos britânicos atuais. "Acredito que as regras do poder, definidas por Maquiavel e bem conhecidas por Thomas Cromwell, não mudaram muito ao longo dos anos." Hilary, porém, adverte: "Não podemos nos esquecer da situação da Grã-Bretanha em 1530, quando as escolhas eram mais arriscadas. Quem cometia algum erro, passaria menos tempo com a família, pois teria a cabeça cortada."
Formada em Direito e já tendo morado em diversos lugares ao redor do mundo, como Botswana e Arábia Saudita, Hilary Mantel escreveu também críticas de cinema antes de se aventurar na literatura, iniciando com um livro de contos. É autora ainda de um livro de memórias, Giving Up the Ghost, e de outros romances como Beyond Black, de 2005, selecionado para o Prêmio Commonwealth Writers e também para o Prêmio Orange de ficção.
Notadamente bem-humorada com a premiação - antes do anúncio, ela dizia que a sensação da espera era semelhante a estar em um choque de trens -, Hilary brincou ao dizer que já tem planos para gastar os 54 mil: sexo, drogas e rock"n"roll. Indagada ontem quando isso começaria, foi novamente rápida: "Esta tarde... tão logo apareça uma lacuna em minha agenda." De fato, como reza a tradição, o vencedor praticamente perde sua liberdade, tamanho o assédio da imprensa.
COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS