Embalada por um crescimento econômico de 8% ao ano, a Turquia aspira se tornar um ator global. Para isso, precisa se credenciar como potência regional. Além de produtos, os turcos querem exportar o seu modelo de islamismo moderado. Esse modelo atrai, principalmente, os países da primavera árabe.
É o que explica o cientista político turco Dogu Ergil, da Universidade Fatih, que acaba de voltar de uma pesquisa de campo no Egito e na Tunísia. Em entrevista ao Estado, ele analisa o endurecimento da Turquia com a Síria. "A Turquia não quer a queda de (Bashar) Assad, mas que ele implemente reformas. Caso contrário, a rebelião popular derrubará o regime. Isso causará muita instabilidade (em toda a região)."
Como o sr. vê a projeção da Turquia sobre o mundo árabe?
O governo turco fortaleceu-se com o crescimento da economia e das exportações. A expansão econômica leva à expansão política. O governo do AKP (Partido Justiça e Desenvolvimento) quer tornar a Turquia um ator global. Para isso, precisa ser uma potência regional no Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio, primeiro pela cooperação econômica e, em segundo lugar, pela projeção de sua cultura política. Em se tratando de um partido islâmico, a exportação das ideias do AKP encontra ouvidos receptivos. Em seu giro pelo Egito, Tunísia e Líbia, o primeiro-ministro turco (Recep Tayyip Erdogan) enfatizou duas coisas: a democracia é uma necessidade e o secularismo é uma garantia de democracia. O secularismo não é definido como antes na Turquia, que era o controle da religião pelo governo, como era na Tunísia e no Egito. É a equidistância em relação a todos os credos. E não só protegê-los do Estado, mas também evitar que um subjugue os outros. Isso significa que a religião será um componente da vida social, que se restringirá ao domínio cultural, mas não assumirá uma forma política.
Como esse modelo é visto no Egito e na Tunísia, de onde o sr. acaba de voltar?
As classes médias modernas o recebem muito bem. Os conservadores e os religiosos estão bastante surpresos. Os elementos mais radicais o recusam. Mas eles não terão o controle desses países no futuro. Eles podem ser eficazes hoje porque as sociedades não estão organizadas. Eles tinham organizações clandestinas, que apareceram como as mais fortes hoje, mas não dominarão o amanhã, que pertence às facções mais modernas.
Como esse movimento é visto dentro da Turquia? O AKP era tido pelo establishment nacionalista como religioso demais. Ele ocupou o centro da política?
Definitivamente. Nas últimas eleições, em junho, eles obtiveram um de cada dois votos. Foi a terceira eleição que eles venceram, sempre aumentando sua votação. Eles conquistaram os setores médios. Começaram como um grupo religioso, mas aprenderam que a religião, sozinha, não é funcional nem domina toda a vida social, que é mais diversa. Eles passaram a ver a religião, cada vez mais, como um fenômeno cultural em vez de político. Os militares, que eram os guardiães do Estado secular, não têm mais poder de veto na política. Estão deixando de ser uma organização política para se tornarem uma corporação profissional de defesa do país. O nacionalismo está em declínio.
A Turquia endureceu em relação à Síria, enquanto o Brasil mantém uma posição mais branda. Que efeito isso tem sobre as relações Brasil-Turquia?
As relações são positivas, mas são prejudicadas pela distância geográfica. A Turquia não quer a queda de (Bashar) Assad, mas que ele implemente reformas em vez de matar o povo nas ruas. Caso contrário, a rebelião popular derrubará o regime e a Síria se tornará um buraco negro, arrastando outros povos da região. O Líbano entrará em colapso de novo. A influência do Irã pode crescer. O Iraque poderá cair na desordem por causa da maioria xiita. Isso causará muita instabilidade.
A tensão entre Turquia e Israel pode crescer?
Chegou a um nível em que está sob controle. A Turquia tem apoiado os palestinos incondicionalmente, considerou a eleição do Hamas legítima e tinha ótimas relações com a Síria, que é inimiga de Israel. Tudo isso levou Israel a crer que a Turquia podia abalar sua segurança. Foi por isso que Israel atacou o Mavi Marmara (navio turco que levava ajuda humanitária para a Faixa de Gaza em 2010) e firmou acordos de exploração de petróleo e gás com o Chipre (inimigo da Turquia) no Mediterrâneo Oriental, abalando as relações.