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Júri absolve acusado de tortura em ex-Febem

Defesa nega autoria de crimes e alega falta de provas; promotor deve recorrer da sentença

Segunda, 08 de Outubro de 2009, 00h00
Marcelo Godoy

Arnaldo Penha dos Santos, de 53 anos, foi absolvido ontem pelos jurados do 1º Tribunal do Júri de São Paulo. Ex-coordenador da Unidade 17 do antigo complexo Tatuapé da extinta Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem, atual Fundação Casa), Santos era acusado de ser coautor da morte de um interno em uma rebelião e de causar lesões e torturar 28 internos após uma tentativa frustrada de fuga, seguida de rebelião dos adolescentes, no dia 24 de dezembro de 1999.

A decisão dos jurados foi rápida. Em pouco mais de seis horas de julgamento, os sete integrantes do conselho de sentença concordaram com a tese do advogado Maurício Carlos Borges Pereira de que inexistiam provas suficientes para condenar o cliente, que alegava inocência no caso do homicídio e legítima defesa no caso de uma das agressões.

"Vocês sabem o que é uma rebelião?", perguntou o advogado aos jurados. "Os internos fizeram funcionários como reféns", afirmou. Santos, segundo ele, estava em casa, na véspera do Natal, quando foi até a Febem do Tatuapé, na zona leste, para ajudar os colegas a controlar o tumulto. O advogado lembrou ainda que os internos da Febem eram, em sua maioria, "gente presa por roubo, que põe um revólver na cabeça de suas vítimas para roubar e às vezes mata ou estupra" e citou o caso do criminoso Champinha, que tinha 16 anos quando matou o casal Liana Friedenbach e Felippe Caffé, crime ocorrido em 2003. "Aquelas criancinhas gostam de jogar futebol com a cabeça de internos rivais."

A acusação feita pelo promotor Carlos Roberto Marangoni Talarico apontava para a importância do júri, o primeiro de um funcionário da antiga Febem acusado de assassinato e tortura de internos. Talarico sustentou que, depois da fuga frustrada, uma parte dos adolescentes que não havia participado do tumulto se recusou a deixar o alojamento da unidade 17 com medo de represálias.

Para desentocá-los, os agentes teriam jogado solvente com querosene por baixo da porta do alojamento e ateado fogo. Uma parte dos adolescentes escapou das chamas pelo telhado do lugar e outra saiu pela porta, sendo espancada pelos agentes, que usavam tacos de beisebol. Contudo, o interno Ricardo José da Silva, de 18 anos, o Maguila, ficou para trás e, intoxicado pela fumaça, acabou sendo queimado vivo. Enquanto isso, os demais internos teriam sido submetidos a sessões de espancamento que deixaram lesões gravíssimas em três deles.

"Esse é o esporte que se praticava na Febem: beisebol. E a bola eram os garotos", afirmou o promotor Talarico. Ele mostrou os depoimentos de internos que disseram ter sido agredidos pelo réu ou visto o acusado agredir colegas. Houve ainda testemunhas que disseram que Santos cruzou os braços, em vez de impedir a ação dos colegas. Talarico ainda exibiu imagens de espancamentos de internos da Febem.

"Mas nenhuma dessas agressões foi praticada pelo meu cliente", disse o advogado. O defensor não negou que internos tenham sido agredidos ou que o fogo possa ter sido ateado por seguranças. Entretanto, afirmou que era necessário que a conduta de Santos fosse individualizada, que ele respondesse só por seus atos e não pelos de outros funcionários.

Os jurados concordaram. Eram 19 horas quando a juíza Luciani Retto da Silva leu a sentença, absolvendo o réu. "Não há prova de qual teria sido a específica conduta do autor delitivo que teria causado esta ou aquela lesão nos menores", disse a juíza. A promotoria deve recorrer. Outros 11 ex-funcionários da Febem aguardam na fila para serem julgados.