Até hoje Alaíde Costa é criticada por cantar difícil. Mas não admite seguir em sua carreira caminho diverso. Costuma dizer que jamais vai gravar ou cantar o que os outros lhe pedirem. Com decisões conscientes, e apesar do preconceito contra a cor da sua pele, ela soube inventar para si mesma um espaço de liberdade artística.
A carioca Alaíde Costa, de 73 anos, é o símbolo de Solistas Dissonantes - História (Oral) de Cantoras Negras, que será lançado na Livraria da Vila, às 16 horas de hoje. De autoria do jornalista e historiador Ricardo Santhiago, o livro reúne entrevistas com 13 intérpretes brasileiras que fizeram sua trajetória fora do mundo tradicional e, de certo modo, redutor do samba.
"Minha dificuldade maior foi cantar um tipo de música que as pessoas não costumavam esperar de uma negra", diz Alaíde na entrevista a Santhiago. "Mesmo hoje, mesmo agora, a maioria dos artistas negros canta principalmente samba."
A inspiração para o título do livro de Santhiago vem do crítico musical Tárik de Souza - ele classificou Alaíde Costa de "solista dissonante". "Ela é pioneira, sintetizou uma tendência, quando adotou uma ação consciente para não se tornar cantora de samba", diz Santhiago.
A intérprete e compositora carioca tem a sua trajetória ligada à bossa nova. Um de seus admiradores antes mesmo de ela estrear em disco, com Tarde Demais (1957), era João Gilberto. Influenciada por Carmen Costa e Dalva de Oliveira, Alaíde conta que se sentiu satisfeita apenas com o terceiro disco, Joia Moderna (1961), feito do jeito que desejava. "Paguei um preço por isso: a gravadora cedeu o estúdio e eu arquei com as despesas", ela relata no livro.
Em 2006, Santhiago iniciou a série de entrevistas com Adyel Silva. Autora do CD Chic da Silva, ela afirmou sua independência para o entrevistador: "Se você diz que não pode, eu vou e faço." Em quatro conversas, ela citou o nome de outras cantoras, que Santhiago procurou e que também mencionaram mais artistas negras do universo da canção e do jazz. Assim se formou a rede de entrevistadas, todas elas estabelecidas no eixo Rio-São Paulo.
O livro resulta de quase 60 horas de gravações, realizadas durante quatro anos, com Adyel Silva, Alaíde Costa, Arícia Mess, Áurea Martins, Eliana Pittman, Graça Cunha, Ivete Souza, Izzy Gordon, Leila Maria, Misty, Rosa Marya Colin, Virgínia Rosa e Zezé Motta.
Para escrever Solistas Dissonantes, Santhiago, de 26 anos, empregou o método da história oral, desenvolvido pela Universidade Columbia, nos EUA, há 60 anos. Ele explica que a história oral, quando criada, transmitiu a ideia de ser uma contra-história, o ponto de vista dos vencidos. "Antes se acreditava que a aplicação desse método pressupunha comprometimento político." Ele discorda da afirmação de que, no livro, deu voz às intérpretes. "Dar voz tem sentido paternalista", diz. "Pelo contrário: eu peguei a voz das cantoras", completa, admitindo o envolvimento intelectual e emocional com as entrevistadas.
Ricardo Santhiago fez poucas perguntas às cantoras. "Pois o fato de estar lá faz a diferença, já representa uma pergunta", diz. "Elas disseram uma coisa para mim e diriam outras histórias para entrevistadores diferentes." Ele afirma não haver ingenuidade na passagem do relato oral para o registro escrito. "Essa modificação é interpretativa." As cantoras reviram a fala transcrita. "O modo de dizer é modificado, mas o conteúdo se mantém."
Em Solistas Dissonantes, Santhiago analisou o conteúdo das entrevistas. Ele diz existir mais diferenças do que semelhanças entre as histórias das cantoras. Apesar dos destinos e estilos diversos, elas têm uma conquista comum: "o exercício da autoridade subjetiva na sociedade." Elas romperam amarras. Segundo o autor, a palavra mais frequente na fala das intérpretes é escolha: as ações são racionais. "Não há lamento nem inocência nos depoimentos."
Adaptação de tese de mestrado para a USP, Solistas Dissonantes levou Santhiago a questionar a crença de que artistas não fazem concessões. "As cantoras negociaram com o seu tempo para criar um novo campo de trabalho." De qualquer maneira, mostram as entrevistas, existe algo irredutível no gênio artístico das intérpretes. Essa coisa intocável, que pode ser chamada de liberdade, é o que anima Alaíde Costa a continuar afirmando: "Jamais vão me dizer o que eu devo fazer."
Serviço
Solistas Dissonantes. De Ricardo Santhiago. Editora Letra e Voz. Livraria da Vila. Al. Lorena, 1.731, 3062-1063. Hoje, 16h