Fados, de Carlos Saura, segue o molde de outros filmes do diretor espanhol dedicados à música, como Flamenco (1995) e Tango (1998). Ênfase na música e na dança, sem grandes explicações externas às manifestações artísticas. No caso de Fados, elas se limitam a poucas palavras escritas na tela logo no início. Brevíssimas informações, que dão uma certidão de nascimento ao fado, com data (século 19) e local (Lisboa). Contam que o fado surge num cadinho étnico, entre a gente pobre que vinha do interior do país, das colônias africanas e do Brasil. Nasce mestiço, nos pátios, nos prostíbulos e nas tavernas.
Vemos - e ouvimos - alguns intérpretes tradicionais como Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro através de imagens de arquivo. Ao lado deles, cantores modernos do fado e mesmo alguns brasileiros como Toni Garrido, Caetano Veloso e Chico Buarque. Chico, aliás, é responsável por uma das sequências mais emocionantes, quando canta seu Fado Tropical (parceria com Ruy Guerra) enquanto ao fundo são vistas imagens da Revolução dos Cravos.
Saura também se preocupa em mostrar - nunca em falar - que mesmo o fado pode ser reciclado em formato contemporâneo, como é o caso da mistura com o funk ou mesmo com o rap, feito por músicos africanos lusófonos. Isso é ainda mais importante quando se pensa que o fado vem associado não apenas à tristeza como à nostalgia, sentimento tão associado a Portugal, mas que já cabe mal no figurino de país moderno e integrado à comunidade europeia. A maneira como o fado entra e fertiliza manifestações contemporâneas desmente essa impressão de imobilismo.
Também vale dizer que o melhor fado é mesmo o tradicional, na voz de um bom e velho cantor lusitano, com sua melodia em tom menor e letras falando sobre o mal de amor. Um "fado menor do Porto", na voz de Amália Rodrigues, é insuperável.
Serviço
Fados (Portugal/Espanha - 2007 - 90 minutos) - Documentário. Direção de Carlos Saura. Censura livre. Cotação: Bom