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O Irã que se reflete na praia de Farhadi

O belo À Procura de Elly vale o Urso de Prata que recebeu no Festival de Berlim

Segunda, 23 de Outubro de 2009, 00h00
Luiz Carlos Merten

Leon Cakoff gosta de lembrar que iniciou a Mostra, há 33 anos, para trazer ao Brasil os filmes que a ditadura militar o impedia - e impedia o povo brasileiro - de ver nas telas do País. A Mostra nasceu como um ato de amor ao cinema e de defesa do direito de expressão e da pluralidade - que ninguém se esqueça disso. Neste tempo todo, Cakoff e a Mostra ajudaram a mudar e moldar o gosto de mais de uma geração de cinéfilos brasileiros. O evento revelou grandes autores, cinematografias inteiras. Hoje, primeiro dia da 33ª Mostra - após a abertura para convidados, ontem, com À Procura de Eric, de Ken Loach -, a oferta de bons filmes é tão grande que nem se multiplicando o espectador poderia assistir a todos.


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Pegue os grandes nomes, todos hoje - Alain Resnais (Ervas Daninhas), Pedro Almodóvar (Abraços Partidos), Michael Haneke (A Fita Branca), Andrzej Wajda (Alga Doce), Emir Kusturica (Maradona), etc. Vários desses filmes estarão entrando em seguida no circuito comercial e, por isso, talvez seja melhor prestar atenção a um filme que vem do Irã. Nestas três décadas, justamente a iraniana foi uma das cinematografias que a Mostra impôs no País, tornando conhecidos autores como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahy e outros. Agora, depois de À Procura de Eric - o título não é o mais adequado, porque o Looking do original (Looking for Eric) refere-se muito mais a "cuidado, carinho" -, que tal sair à procura de Elly?

Em Berlim, em fevereiro, À Procura de Elly foi contemplado com o Urso de Prata de direção, pelo júri presidido pela atriz Tilda Swinton. É o quarto filme de Asghar Farhadi e, pelos anteriores, ele já havia recebido elogios da crítica e do público em todo o mundo, inclusive aqui mesmo na Mostra. Farhadi fez agora um dos filmes mais intensos e perturbadores vindos do Irã, nos últimos tempos. Muitas vezes, os diretores iranianos constroem complicadas metáforas - como antes viam o mundo pelos olhos das crianças - para driblar a censura e falar de política no país dos aiatolás. Farhadi fez um filme muito político sobre as tensões no Irã, mas o faz tratando de relacionamentos - e choques culturais.

Tudo se passa nesta praia onde se reúnem alguns casais. O mar está revolto, parece fora de estação, como num daqueles filmes clássicos de Valerio Zurlini. E os casais são de amigos. Estudaram juntos, encarnam, digamos, a modernidade do Irã. Outro amigo desgarrado está sozinho, porque veio da Alemanha, onde acaba de se divorciar, e uma das mulheres tem a ideia de trazer uma convidada, a professora de seus filhos, na expectativa de que Ahmad, é o nome dele, se interesse por Elly. Mas, na verdade, ninguém sabe nada sobre Elly e ela vira uma estranha - intrusa? - no grupo.

Tensões começam a aflorar e Elly some, mas seu desaparecimento é precedido pelo de uma das crianças. É um momento impressionante - o grupo diante do mar, na expectativa (medo?) de que ela possa ter-se afogado. Depois, é a própria Elly que todo mundo procura e, a esta altura, a unidade do grupo já se desintegrou, maridos e esposas brigaram e a tradição entrou em choque com a modernidade, sufocando-a. À Procura de Elly traz as possivelmente mais belas atrizes do cinema iraniano. O diretor Farhadi valeu-se de um artifício - ele filmou todas as cenas com Taraneh Alidoosti, que faz Elly, e depois a impediu de circular no set ou se encontrar com seus colegas de elenco. A Mostra, que começou com futebol, prossegue em alto nível com o mistério sobre Elly.


Serviço
À Procura de Elly (Irã, 119 min.), de Asghar Farhadi
Unibanco Arteplex 4 - Hoje, às 22h30
Cinemark Cidade Jardim - Sábado, às 19 h
Reserva Cultural 1 - Domingo, às 12 h
Cinesesc - 2.ª, às 16h30