Um túnel de 3,7 quilômetros, com espaço para pelo menos duas faixas de rolagem, foi construído pela Petrobrás na Serra do Facão, município de Cachoeiras de Macacu, região serrana do Rio. A impressionante obra, que usa tecnologia inédita no País, porém, não vai receber carros, mas sim o maior gasoduto brasileiro em capacidade de transporte de gás, o Gasduc III, uma das principais obras do Plano de Antecipação da Oferta de Gás Natural (Plangás).Com investimento de R$ 2 bilhões e capacidade de 40 milhões de metros cúbicos por dia (10 milhões a mais que o Gasoduto Bolívia-Brasil), o projeto será inaugurado em um momento bem distinto daquele em que foi projetado, no qual o problema não é mais a oferta de gás natural, mas encontrar mercado para o combustível. Com 183 quilômetros de extensão, o Gasduc III vai fazer do entroncamento de dutos na Baxiada Fluminense o principal hub de gás do País, com distribuição do combustível produzido no Espírito Santo e na Bacia de Campos, além das importações de gás natural liquefeito, para São Paulo, Belo Horizonte e Região Sul. Além disso, garantirá a operação simultânea das térmicas instaladas no Rio.Os números da obra são grandiosos. É o primeiro gasoduto brasileiro com diâmetro de 38 polegadas. Durante o pico, as obras empregaram quase 7 mil pessoas - hoje são 4,5 mil, trabalhando em três turnos para garantir o início das operações nos primeiros dias de 2010. Durante a construção do túnel, foram retirados 150 mil metros cúbicos de material rochoso, que está sendo usado para recuperar encostas degradadas no entorno da obra. A expectativa é que, no dia 30 de dezembro, o duto passe pelo último teste antes de receber gás.Elaborado após a nacionalização boliviana, o Plangás foi pensado para reduzir a dependência externa do combustível. Na época, a tomada dos campos da Petrobrás pelo exército boliviano acendeu o alerta no governo, diante da possibilidade de corte no suprimento, que representava mais da metade do gás consumido no País. Com um orçamento superior a US$ 10 bilhões, o programa será concluído no ano que vem, com o início das operações do último grande projeto, o Campo de Mexilhão, na Bacia de Santos, capaz de injetar até 15 milhões de metros cúbicos por dia na malha brasileira de gasodutos. Outra grande obra em curso é a construção do trecho Cacimbas-Catu, do Gasoduto Sudeste-Nordeste (Gasene), projeto de R$ 3,5 bilhões que deve entrar em operação em março.A conclusão dos investimentos do Plangás cria um desafio para as áreas comerciais da Petrobrás e das distribuidoras de combustíveis. Em virtude da crise financeira e do excesso de chuvas sobre os reservatórios das hidrelétricas, o mercado de gás caiu 30% este ano. Além de reduzir as importações da Bolívia ao nível de 20 milhões de metros cúbicos por dia, a Petrobrás vem reduzindo a produção em plataformas no País."Há uma conjugação de fatores contribuindo para a baixa do mercado", comenta Marco Tavares, diretor da consultoria especializada Gas Energy, citando as térmicas e a indústria como principais responsáveis pelo recuo no consumo. De fato, segundo dados da Associação Brasileira das Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás), o consumo térmico caiu 17,8% em setembro, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Já o mercado industrial teve queda de 11,96%.Tavares prevê que o Brasil terá excesso de gás, em torno de 20 milhões de metros cúbicos por dia, pelos próximos três anos. Uma mudança radical com relação ao fim de 2007, quando o fornecimento do combustível a postos de gás natural veicular (GNV) e indústrias no Rio chegou a ser cortado para que as térmicas pudessem entrar em operação. Agora, diante da mudança, o GNV pode ser uma das alternativas para absorver parte do excedente, diz a diretora da Gás e Energia da Petrobrás, Graça Foster. A Gas Natural, que controla distribuidoras no Rio e em São Paulo, por exemplo, já iniciou uma campanha para estimular o uso do combustível. "Hoje, temos nova oferta de gás e novo contrato de suprimento com a Petrobrás que permitem garantir o crescimento do mercado", diz o gerente de grandes clientes da distribuidora, Marcelo Napolitano. Segundo ele, as conversões para GNV estagnaram após o incidente do final de 2007, mas já dão sinais de crescimento. O preço do combustível tem papel preponderante nesse movimento, com queda de 9,34% durante o ano.O mercado de GNV, porém, é marginal e, para o vice-presidente da Comgás Sérgio Silva o governo precisa definir nova política de preços, caso queira incentivar o consumo. "É preciso criar condições para desenvolver novos mercados", afirma, ressaltando, como exemplo, a diferença entre os preços do gás de botijão, congelados desde 2003, e do gás natural.Graça já vê uma queda de preços, a partir do leilões realizados este ano pela empresa para venda de contratos de curto prazo. "Os preços dos leilões estão entre 30% e 40% inferiores e isso vai influir na média final", diz a executiva, que não concorda com os cálculos sobre excedente de oferta. Ela lembra que a estatal tem que reservar gás para térmicas e, caso as usinas sejam acionadas, terá que reduzir o envio às distribuidoras. "Se não fosse a crise econômica, estaríamos com as obras apertadas agora." Graça, admite, porém, que é preciso um esforço maior na busca de mercados interruptíveis, que possam usar gás nos períodos de baixa demanda pelo setor elétrico. U