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Pioneiro, 'leopardo ganense' vira atração em Vancouver

Kwame Nkrumah-Acheampong, de 35 anos, driblou a falta de apoio para ser o primeiro atleta de Gana nos Jogos

Terça, 06 de Fevereiro de 2010, 00h00
Bruno Deiro

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LEOPARDO DA NEVE - Traje reforça apelido do atleta


Um dos poucos competidores negros em Vancouver, no Canadá, Kwame Nkrumah-Acheampong faz questão de realçar que é diferente. Usa nas provas um traje tigrado, que justifica o apelido de "Leopardo da Neve". Primeiro atleta na história de Gana a disputar os Jogos de Inverno, o ex-guia de safári na África obteve a vaga sem o apoio do governo de seu país.

Aos 35 anos, Kwame surpreende por seu pouco tempo no esqui. Conheceu a neve há 10 anos e começou no esporte há apenas cinco, quando foi trabalhar como recepcionista em uma estação em Milton Keynes, na Inglaterra. Começou a treinar em pistas indoor e logo ingressou no circuito mundial, especializando-se no slalom.

Nascido na Escócia, quando o pai fazia um mestrado na Universidade de Glasgow, ainda pequeno foi morar em Gana, terra de seus pais. Logo cedo, começou a trabalhar como guia de safáris e foi para a Inglaterra terminar os estudos em turismo. Hoje, quando não está competindo, vive na cidade de Mamfe Akwapim, em Gana, com a mulher e os dois filhos. Lá, a temperatura média anual é de 30 graus e pode superar os 50 durante o verão.

Com patrocínio mínimo de pequenas empresas, Kwame depende da boa vontade alheia para disputar os Jogos. Sua preparação será de apenas um mês, e graças à ajuda do departamento de turismo de Vancouver, que forneceu acomodações, transporte e auxílio de logística. Ele estreia no dia 21.

"Até agora nós não recebemos um centavo, libra ou schilling (moeda austríaca)das autoridades de Gana, o que tornou a vida quase impossível", declarou o empresário do ganense, o inglês Richard Harpham.

Em seu site oficial, o time de esqui de Gana lançou um SOS para achar pessoas dispostas dar abrigo a alguns membros da equipe e familiares de Kwame, para acompanhá-lo em Vancouver. Se possível, que ajude com os ingressos para a abertura e para as provas de Kwame.

Sucesso de divulgação na imprensa, com seu jeito irreverente, o ganense tem atraído a atenção da mídia do mundo todo. A publicidade tem ajudado a conseguir mais auxílio. "De entrar na gôndola, parar para abastecer ou pedir um chocolate quente, as mensagens de apoio são inspiradoras e recebidas com gratidão", comemorava Kwane, em seu site. No dia 14, Dia dos Namorados no Canadá e nos EUA, uma boate de Whistler, onde Kwame irá competir, vai abrir as portas para arrecadar fundos para o atleta.

Kwame conseguiu a vaga em um campeonato no Irã, depois de participar de torneios preparatórios na Itália, Grécia, Bósnia, Alemanha e França.

PIONEIROS NO GELO

A história de Kwame em Vancouver remete aos jamaicanos que causaram sensação em Calgary, também no Canadá, durante a Olimpíada de Inverno de 1988. O time jamaicano de bobsleigh, treinado pelo americano Howard Siler, ganhou fama com uma boa participação e ajudou a desenvolver o esporte no país, que não tinha tradição.

Daquela vez, nem conseguiram terminar a prova, mas a trajetória foi mostrada no filme Jamaica abaixo de zero, que teve sucesso comercial e imortalizou a história dos atletas.

Nos anos seguintes, a equipe jamaicana ainda participou de outras duas Olimpíadas de Inverno e chegou a levar o ouro em um campeonato mundial, em 2000. Sem prosseguimento, porém, ficou de fora dos últimos Jogos, em Turim, na Itália, e não se classificou para a disputa em Vancouver.

Em Olimpíadas de Inverno, por sinal, os negros ainda buscam afirmação. A primeira medalha de ouro de um negro na história do evento foi obtida apenas em 2002, com a norte-americana Vonetta Flowers. Em Salt Lake City, ela conseguiu o feito então inédito no bobsleigh de duplas feminino.

Este ano, a delegação dos EUA vai bater seu recorde de atletas pertencentes às minorias do país, mas o número ainda é baixo. Em um total de 211 membros, serão apenas 23.

FALTA NEVE

A uma semana do começo dos Jogos em Vancouver, a organização do evento é obrigada a apelar para neve artificial para garantir a realização das provas. O início de inverno na cidade canadense foi o mais quente da história, com média de 7,2 graus em janeiro.

A temperatura não caiu abaixo dos -2,7 em momento algum e a cidade não recebeu nem sequer um alerta de neve, o que é bastante incomum para esta época do ano. Até a abertura da competição, no dia 12, os meteorologistas preveem um calor ligeiramente acima do normal.