Na linha sucessória das companhias, o tempo de casa de um executivo tem peso. Mas esse período tem de ser bem dosado. Vários anos de dedicação à empresa podem contar a favor, desde que não tenham sido gastos sempre no mesmo cargo. Porém, mudar demais de função pode ser negativo. "É mal vista a pessoa que tenha pulado demais, não só de empresa, como de cargo, e tenha apresentado muita instabilidade curricular", afirma João Marcio Souza, diretor da Hays, consultoria de recrutamento britânica.
Essa visão, no entanto, não é uma regra, diz Souza, pois pode variar de setor para setor, "de empresa para empresa, de cultura para cultura", ou conforme o momento econômico.
Nos segmentos mais tradicionais - como a indústria automotiva, dominada por multinacionais, por exemplo -, a estabilidade curricular costuma ser valorizada. "Num processo sucessório, se privilegia alguém que está há mais tempo na companhia." Isso porque nas múltis e grandes companhias, explica Souza, prevalece a visão europeia. "Se privilegiam muito as pratas da casa."
Empresas de grande porte, aliás, costumam desenvolver programas de desenvolvimento e retenção de talentos para preparar seus executivos para as altas posições. "O que o mercado busca hoje é profissionais com ciclos maiores, lealdade aos projetos, e menos instabilidade curricular", resume.
Mas se existem brechas para encurtar esse ciclo, provavelmente elas estão nas empresas menores, nos novos mercados como tecnologia da informação, telecomunicações, internet, ou no mercado financeiro, exemplifica Souza. Nesses setores, a cultura é diferente. "Não vejo acontecendo movimento de pessoas muito jovens sentando em altas cadeiras de multinacionais de grande porte. Mas vejo em menor porte e em setores mais ligados às áreas novas, até porque esses mercados têm outras características."
As mudanças no cenário econômico também criam oportunidades, pois podem exigir que as empresas tomem direções específicas. "Nesse período de crise, houve muita troca de cadeira. E as posições foram ocupadas por pessoas de perfil de comportamento em linha com a situação do mercado." A crise global, por exemplo, fez muitas empresas procurarem executivos com experiência em controle de custos. "Trocas de comando nas empresas são muito em função disso."
O TEMPO IDEAL
Há 23 anos na Accor Services, Eliane Aere, diretora de Recursos Humanos, diz que não há um tempo ideal para ficar num determinado lugar. "Existe um bom senso quando se assume uma posição de comando." Mas se arrisca a quantificar o que seria um ponto de equilíbrio. "Acho que, no mínimo, um executivo precisa de três anos para mostrar seu potencial. E cinco anos é o bom."
Por 11 anos, Eliane foi gerente regional, depois migrou para a área de tecnologia, onde ficou 6 anos. Hoje, está no início do quarto ano no setor de recursos humanos. "No nosso negócio, o normal é que executivos tenham mais de 10 ou 15 anos de atuação na mesma empresa ou setor."