A Telefônica anunciou ontem uma proposta de compra de 100% das ações da operadora de telecomunicações brasileira GVT. A empresa oferece R$ 48,00 por papel da operadora, em dinheiro, o que equivale a um total de R$ 6,5 bilhões. A proposta é 14,3% maior do que os R$ 42 por ação anunciados no começo de setembro pela francesa Vivendi, que não opera telecomunicações no Brasil. O anúncio pode fazer com que a Vivendi, ou até alguma outra empresa, apresente um novo lance.
A GVT surgiu como competidora da Brasil Telecom, em Estados das Regiões Sul e Centro-Oeste, e se expandiu. Hoje, ela está presente em mais de 80 cidades. Em São Paulo, onde atua a Telefônica, só atende a grandes empresas, o que faz com que praticamente não haja sobreposição entre as operações. "A GVT é a operadora que mais cresce no Brasil", afirmou Mariano de Beer, vice-presidente executivo da Telefônica.
A operadora espanhola espera concluir a aquisição, incluindo uma aprovação do negócio pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), até 19 de novembro. A GVT informou ter ficado sabendo da proposta ontem, quando a Telefônica divulgou o fato relevante, e que vai se pronunciar somente depois de analisá-la.
A compra da GVT marcaria a entrada da Telefônica no mercado residencial de telefonia fixa e banda larga fora do Estado de São Paulo, concorrendo diretamente com a Oi, que comprou a Brasil Telecom em 2008. "A aquisição da GVT é um negócio que faz bastante sentido para a Telefônica", afirmou Luis Minoru Shibata, diretor de Consultoria da PromonLogicallis. "Há muito tempo o mercado espera uma oferta da Telefônica pela GVT."
Beer, da Telefônica, negou que a empresa tenha feito a oferta para impedir a vinda da Vivendi no Brasil. "Nosso objetivo não é bloquear a entrada de ninguém", disse o executivo. No ano passado, um executivo da Telefônica chegou a afirmar que tinha interesse de comprar a GVT, mas que o "preço estava alto". Após a oferta da Vivendi, o preço ficou mais alto ainda. Com a aquisição da GVT, o mercado brasileiro de telefonia fixa ficaria dividido entre três grandes grupos: Oi, Telefônica e Embratel/Net.
O negócio depende da aquisição de pelo menos 51% das ações emitidas pela empresa ou que tiveram sua emissão aprovada pelos acionistas. Também depende da dispensa da aplicação dos mecanismos de proteção de dispersão da base acionária (também chamados de "poison pills"), presentes no estatuto da empresa.
Em junho, a GVT tinha 1,2 milhão de clientes de telefonia fixa e 541 mil de banda larga. "A rede da GVT oferece um diferencial muito grande, pois ela leva as fibras ópticas muito perto da casa do assinante", disse o analista Júlio Püschel, da consultoria Yankee Group. "Até agora, a maior limitação a uma presença maior da empresa foi o aporte de investimentos.".
Na Europa, a notícia de que a Telefônica entrou na disputa pela GVT não causou surpresa. Desde o anúncio da primeira oferta, analistas já se preparavam para a abertura de um leilão em torno da operadora brasileira. Embora tenha poder de fogo, alertam os especialistas, a Vivendi tem a cultura da disciplina financeira, e pode não ir às últimas consequências para vencer a batalha. A notícia da oferta da Telefônica chegou a Paris no meio da tarde, e de imediato a companhia francesa anunciou que não se manifestaria sobre a jogada do concorrente - a número 1 da Europa.
COLABOROU ANDREI NETTO